Entrevistas

 

27/04/2014 6:39

Escritora uberlandense fala sobre sua trajetórias, planos e decepções

Amanda Célio Repórter

 

Na Escola Estadual João Rezende, embaixo de uma grande Sibipiruna e ao lado da biblioteca da escola que leva o nome dela, a escritora uberlandense Martha de Freitas Azevedo Pannunzio aguardava a equipe do CORREIO de Uberlândia para um bate-papo que rendeu mais de uma hora de prosa e muitas histórias. Algo familiar e prazeroso para quem assina obras literárias renomadas nacionalmente.

Escritora uberlandense fala sobre sua trajetórias, planos e decepções

Martha Pannunzio recebeu o CORREIO no bairro Custódio Pereira, na biblioteca da E.E. João Rezende, que leva o nome dela (Foto: Cleiton Borges)

Aos 76 anos, a educadora, professora, escritora e contadora de história, como dona Martha mesmo se descreve, é mãe de cinco filhos, avó de 14 netos e bisavó de uma menina linda, como ponderou. Na bagagem, traz um legado rico em literatura, educação e uma experiência de quem acompanhou e vivenciou momentos históricos como a Segunda Guerra Mundial e o Golpe de 64.

Ativa na vida política, Martha se elegeu vereadora em Uberlândia duas vezes. Na fazenda, herdada dos pais, onde resolveu morar há mais de 20 anos após ficar viúva, a escritora leva uma vida simples e conta com a ajuda de um dos filhos para administrar a propriedade e poucos funcionários para desempenhar outras funções. É no campo que a escritora que dorme pouco e escreve muito se organiza para cultivar as plantações, a horta, as galinhas, principalmente as de pescoço pelado – pelas quais tem um carinho especial – e o pomar.

Além disso, responde a todos os leitores da lotada caixa de e-mail e cuida com afinco de uma de suas paixões: o Cerrado brasileiro. É dele que veio a inspiração para a criação de um dos trabalhos que mais se orgulha: o “Cerrado e Letras”. A iniciativa faz parte do projeto “Bicho do Mato”, nome de um de seus livros centrado na vida rural.

Em meio às histórias contadas, a escritora se mostrou um pouco desapontada com o atual cenário da política brasileira, motivo que deverá levá-la a morar fora do país em breve. O destino escolhido: Uruguai. Mas, antes da mudança radical, a escritora adiantou à reportagem alguns projetos.

CORREIO DE UBERLÂNDIA – Como estão os preparativos para o projeto de contação de histórias em maio?

MARTHA PANNUNZIO – Essa é a menina dos nossos olhos. A diretora da Biblioteca Pública Municipal Juscelino Kubitschek, Denise Carvalho, é quem coordena esse trabalho. Temos um grupo de voluntários, de qualquer idade ou formação. Se a pessoa tem aptidão de contar histórias e se prontifica a fazer uma recreação, seja com crianças, idosos ou doentes, nós reunimos uma vez por mês, a biblioteca cede o espaço e, uma vez por ano, realizamos essa ação, que está na 5ª edição. Recebemos crianças do 1°, 2° e 3° ano do ensino fundamental, no Espaço Mundo da Criança. São vários contadores que vão se estabelecer no espaço e estimamos que neste ano receberemos duas mil crianças durante todo o dia. É um piquenique campestre. Neste ano, teremos a banda do 36° Batalhão e a banda Municipal para coroar o evento.

E o projeto Bicho do Mato?

O “Bicho do Mato” tenho desde 2000 e, ao longo desses anos, recebi na minha fazenda mais de 14 mil estudantes com o trabalho “Cerrado e Letras”. Em cada visita, nós recebemos 100 alunos do Ensino Fundamental ou Médio. É um projeto lindo e aberto a qualquer escola. Recebemos alunos de Uberlândia e da região. É um dia todo de campo pelo Cerrado com as crianças.

A senhora escreveu uma carta para Dilma sobre o “Brasil Carinhoso” em 2012 quando o projeto foi transformado em lei. A carta rendeu várias republicações na internet, de pessoas a seu favor e contra. Afinal, a senhora teve alguma resposta da presidente sobre suas críticas quanto ao Brasil ter a cultura de “dar o peixe e não ensinar a pescar”?

A Dilma não me respondeu, mas eu fiquei feliz com a repercussão. Eu guardo no meu computador mais de 27 mil mensagens sobre o assunto. Eu fico feliz de ainda nesta idade ser contemporânea desse tempo da internet, de poder responder em tempo real, compartilhar com pessoas, brasileiros ou não, que estão interessados no Brasil, que estão infelizes e queriam alguma coisa diferente ou que me combatem também.

Pretende se mudar para o Uruguai. Por quê?

Eu sinto que nós estamos no fundo do poço. Eu não vejo para os meus netos um caminho. Às vezes, eles me falam: vó, não estou entendendo nada que você fala. Meus netos andam com medo. A noite não pertence à juventude, eles não têm tranquilidade. O Uruguai, nesse momento, é o país mais próximo da gente. É um país pequeno, que sofreu muito politicamente e está se organizando. É um país de jovens bilíngues, onde se respeita a tradição e a cultura dos índios. Eu leio e ouço muito do Uruguai, que anda piscando muito para mim, uma simpatia. Vou no mês que vem para passear, mas acho que vou para gostar. Se eu gostar, fico.

Recentemente, a senhora teve um pedido de revisão por uma editora do seu livro “Três capetinhas”. O que aconteceu?

Recebi uma carta da editora que estava fazendo a 30ª edição do livro “Três Capetinhas”. Na ocasião, ela pediu revisão de umas quinze páginas e disse para eu consultar e ver o que eu poderia fazer para “adoçar” o livro, que tem frases como “o menino chutou o cachorro”, “o irmão brigou com o irmão”. São situações que retratam o nosso cotidiano, mas ela pediu para modificar. Como eu não concordei, o livro ficou fora das listas de livros que podem receber benefícios do governo. Nós estamos na antissala da censura.

A senhora usa muito a internet. Consegue enxergar a internet como meio de divulgação de conteúdo literário?

Eu vou fazer três livros e vou bancar a produção deles. O livro fica caro na livraria. Mas fazer um livro é barato. Eu vou fazer, vou botar na internet e disponibilizar para a humanidade. Se essa ideia de popularizar a produção literária for adiante, que a gente faça o livro benfeito para ficar nas memórias e para as bibliotecas, mas não que o livro tenha de ser comercializado exatamente na livraria. O que atrapalha é o processo e os entraves que tem até chegar lá. Eu sinto muito pelo livreiro, mas tem de simplificar. Se todo mundo quer ganhar o dobro, em cima do dobro, aí… Vou fazer essa experiência e só encontro gente que quer me ajudar a fazer. Sou uma mulher revolucionária.

O que a senhora acha dessa literatura fantástica? Séries como “Harry Potter” ou “Crepúsculo” são boas leituras?

Eu não tenho competência para produzir essa literatura. Não me agrada, mas admiro quem faz. Tem um público, né? Eu não sei se eles leem aquelas 300, 500 páginas. É muito personagem, você tem de fazer uma lista, uma agenda com tantos personagens e histórias. Eu prefiro o concreto: “era uma vez…” Isso que aconteceu na minha casa que é concreto. Eu só sei lidar com o concreto. Eu gosto de ler e produzir o que é concreto e possível de acontecer em algum lugar. Prefiro trabalhar no singelo, no cotidiano, na linguagem coloquial. O Brasil está com uma produção literária significativa e boa. Mas eu acho que vale tudo, até revista de mulher pelada na mão de “menino” para ele gostar de ler. Mas lamento que a internet tenha “estabelecido” um código linguístico que é uma agressão à gramática. Daqui a cinco anos, esse jovem vai pleitear um emprego, mas ele está desarmado. Ele não sabe nem falar, nem escrever.

 

Fonte: https://www.correiodeuberlandia.com.br

 


Adélia Prado -A EXPERIÊNCIA DO PRAZER Foto de Adélia Prado Ela escreve desde os 14 anos, quando fez seu primeiro soneto. Mas só publicou o primeiro livro de poemas aos 40 anos, em 1976: Bagagem, lido e recebido com entusiasmo pelo poeta Carlos Drummond de Andrade. Mãe de cinco filhos, poeta e romancista, mais de oito livros publicados ­ entre eles, O Pelicano, A Faca no Peito, Os Componentes da Banda e Cacos para um Vitral ­, Adélia Prado recebeu o Caderno de Sábado em Divinópolis, Minas Gerais, para falar da condição humana, da sua experiência com a palavra e da felicidade e da beleza da criação poética.


Como foi seu encontro com a poesia? Lendo poetas, experimentei a mesma coisa que sentia desde a infância com determinados fatos e situações, então verbalizei a coisa! Ah! Aquela coisa boa que eu sentia era poesia, é poesia! Mas isso muito antes de eu escrever meus próprios textos. Isto foi na juventude.

Que experiências foram essas? A experiência de que falo é da beleza. Experimentos de plenitude, de felicidade. É a experiência de natureza poética, da revelação do real. Mas estou verbalizando isso agora, com oito livros e tudo.

Por que esta experiência não é constante e não acontece ou não atinge a todos com a mesma intensidade? Porque nós somos seres decaídos. Se eu estivesse ainda na unidade divina, de onde provenho, a sensação seria de pura plenitude, em fim. Mas como sou um ser decaído, vivo no tempo e não na eternidade, essa minha condição, a condição humana: experimentar de vez em quando essa beleza.

A poesia é uma necessidade religiosa? Ela não é uma necessidade religiosa, ela é religiosa em sua natureza. Todo fenômeno de experiência da unidade é de natureza religiosa.

A sua poesia estabelece contato com a unidade através de freqüentes referenciais cristãos, entre outros. Por que eles se manifestam tão fortes em sua obra? A poesia religiosa não é religiosa por causa do tema religioso. Não é o assunto religioso que a torna religiosa, não. Eu disse que a experiência poética é de uma natureza religiosa. A experiência, como tal. E aí você pode falar de mar, de sol, de terra que você está falando de religião. Agora, na minha obra, existem registros de natureza religiosa cristã-católica, tributários da minha formação, da minha história.

E como é esta sua história? É muito simples. Eu venho de uma família religiosa. Eu herdei todo esse conjunto de tradições, de costumes piedosos, a piedade religiosa, popular, mineira... É uma coisa muito próxima de mim. Eu fui educado dentro disso. Mas, para mim, a religião não é apenas isso.

Depois do Concílio Vaticano II, a Igreja mudou muito, os rituais perderam muito de natureza poética, empobreceu-se a liturgia, banalizaram-se os ritos... Eu acredito que a Igreja institucionalizada, com seus ritos, cultos está realmente necessitada de buscar novamente o revigoramento da liturgia, da prática cristã popular, do culto. A tentativa de levar a liturgia para o povo, por exemplo, o uso do vernáculo e de instrumentos profanos na Igreja, teve um lado positivo, mas teve também um lado bastante negativo, que foi a banalização do culto e do sagrado, daquilo que deveria manifestar o sagrado. Isso provoca nas pessoas uma fome e um desassossego muito grandes. Mas vejo uma preocupação da própria Igreja em retomar certos usos, costumes, comportamentos litúrgicos, que tragam para a assembléia do povo de Deus mais alegria e beleza, mais solenidade, mais piedade mesmo, nas suas expressões comunitárias da fé.

É possível mesmo recuperar isso hoje? Claro. Evidentemente que é possível. O que permanece intacta é a nossa fome do divino. Todos esses desgovernos que a Igreja sofre como instituição é porque ela é uma igreja santa e pecadora, ela está inserida na História. Então, ela sofre esses percalços. Você faz uma volta ao popular, mas perde uma série de outras coisas. Do outro jeito você perde também. Mas é um caminhar. A Igreja tem que, realmente, retomar, por exemplo, a questão da música religiosa, que está horrivelmente precária. É feio o que se está cantando hoje na Igreja.

E nada poético. É feia porque não é poética. Você vê, a música popular religiosa: ela é maravilhosa, belíssima. Ela instiga, inspira piedade sem fazer força nenhuma, por causa da beleza. Então, se você é obrigado a cantar uma música feia (e isso é impingido aos fiéis), vem o disquinho, as letras ­ tem mais letra do que música ­; é uma letra muito enjoada, muito doutrinalizante, onde a beleza e o simples louvor são esquecidos.

Você falou em seres decaídos. Qual a sua noção do pecado? Eu sou o pecado. A criatura é o pecado. Falar que ela comete um pecado é quase uma redundância. A condição humana histórica é uma condição de pecado. O mal me habita, assim como o bem.

O que é o mal? Acho que é a recusa de Deus e de sua obra. É um assunto dificílimo. Não querer aceitar a condição de criatura. Parece que é por aí. A questão do orgulho.

Falando de sua formação literária, que autores foram decisivos no seu encontro com a literatura, a poesia? Guimarães Rosa, Drummond, Jorge de Lima e Murilo Mendes foram autores decisivos para mim. Fundamentais.

Em que medida eles foram fundamentais? Através das obras deles, eu vi espelhada a minha humanidade. Eu falei: sou um igual. Eu me vi reconhecida, me vi refletida e eles confirmaram a minha humanidade. Isso me deu um descanso, me deu alegria, falei: que bom, então não sou diferente, sou como todo mundo!

Como você se sente começando tarde com o seu trabalho? Isso para mim não tem a menor importância. Acontece que eu escrevo desde os 14 anos, quando fiz meu primeiro soneto. Mas tudo que eu escrevi até Bagagem não tem nenhum valor literário. São coisas que têm importância, para mim, afetiva, de um bom tempo da minha vida. Agora, literatura, eu comecei aos 40 anos.

Mas o que lhe deu consciência de que aquilo não era um valor literário? O fato de que eram a minha cara sem transcendência.

Você se sente nascida para a poesia, queria ser poeta? O poeta é poeta. Ele não se faz poeta. Não há escola de poetas. Não tem jeito de você ficar mais esforçado. Quando você fala para um pessoa: "Você se esforce que vai dar certo", você está mentindo. Ou você é poeta ou não é poeta. Quer dizer, eu já era poeta, mas a obra não era poesia. A obra era má.

O que é um bom crítico, para você? O bom crítico é aquele que aponta as virtudes e os vícios da obra, de maneira completamente imparcial, de maneira formal, de maneira (acho que aqui cabe a palavra) acadêmica.

E a diversidade de opiniões, de enfoques, de leituras? Como é possível a crítica imparcial nesta multiplicidade de gostos e interesses? Cada um vê a coisa de um jeito, mas a crítica tem elementos formais, acadêmicos, científicos quase, para falar que determinado livro é mau, tal verso é mau, o que aconteceu no meu último livro. Eu fui criticada pelo Felipe Fortuna em relação ao livro. E, depois de um ano, percebi a justeza das observações dele. É um livro que eu não quero reeditar: de onde 12 poemas são maus poemas e me custou ver isso.

O crítico pode servir como um termômetro para o poeta? Este é o ofício dele.

Sim, mas sabemos que há os bons críticos e os maus críticos. Como também temos bons poetas e péssimos poetas. Isso vale lá e cá.

Você pode nos apontar alguém que você considera um bom crítico? Já li críticas excelentes do Alfredo Bosi. Esse jovem que me fez crítica, o Felipe Fortuna, sobre o livro A Faca no Peito, que foi muito doloroso aceitar, mas que foi valiosíssima. É um crítico que eu respeito. O Afonso Romano gosto muito também. Eu conheço pouca gente. Não leio ensaios, crítica literária. Gosto mais de ler a obra do que a crítica.

Falemos sobre a elaboraçção do seu trabalho. O poeta João Cabral me disse que não existe aquela coisa de estalo. O que há é o trabalho contínuo e permanente. Ou, no dizer de Quintana: o grande segredo é cortar impiedosamente. Como surge o poema, para você? Quando você sente que o poema está satisfeito em um dado momento? Acho que tem que haver inspiração. Acredito na inspiração.

O que é a inspiração? É o estado e fruição poética que determina coisa lhe provoca, com o desejo imediato de expressar aquilo. É uma necessidade fatal.

A inspiração é o desejo? Não. Desejo não. Posso estar com o desejo de fazer um poema agora e não dar conta. Não é este desejo. Mas um desejo num sentido muito mais profundo. Desejo no sentido de necessidade.

Uma necessidade que você tem que superar... satisfazer... É. Eu posso passar sem esse café (segurando uma chícara de café), mas se tem um poema querendo nascer, eu tenho que dar um jeito.

É sempre um parto doloroso... Não. Não e não. O poeta que fala que sofre para escrever, não sei não...

Não é um poeta? Não sei. Pode ser um poeta de outra categoria (risos). Eu acho que fazer um poema, ainda que o mais triste, é uma situação de prazer e alegria. É uma coisa fantástica escrever. Quem escreve sabe disso. Quando eu escrevo um poema, não fico assim: "Aí, que amargura, aí, que tristeza!" Nunca vi isso na minha vida (risos).

Existe o fazer poético e a postura poética. Há os que escrevem livros de poesia e são chamados de poetas. Mas há os que não escrevem nada, mas assumem uma postura na vida, com uma sensibilidade extremamente poética. Afinal de contas, o que é ser poeta? Você atribui o título de poeta, de um modo geral, a pessoas sensíveis, que são tocadas pela beleza, pelo sentimento, que o colocam em primeiro lugar na vida, o sentimento antes da razão. Isso, corretamente. Agora, poeta, no seu sentido completo, é aquele que expressa verbalmente, de maneira rítmica, o sentimento de forma universal, que tem a ver com ele, que tem a ver comigo e que tem a ver com todo o mundo.

Como foi o aparecimento do seu primeiro livro: Bagagem? O livro apareceu em 76. Eu comecei a escrevê-lo talvez em 73, por aí. E os poemas praticamente irromperam, apareceram cargas e sobrecargas de poemas. Eu escrevia muito nesse período, e quando eu vi que o volume tinha uma unidade, que ele não era apenas uma coleção de poemas, pois tinha uma fala peculiar, dele próprio, entre outros títulos que me ocorreram, Bagagem era o que resumia, para mim, aquilo que não posso deixar ou esquecer em casa. A própria poesia.

A partir de Bagagem poesia passou a ser imprescindível em sua vida? Não. Muito antes do Bagagem, eu sabia disso. O que aconteceu foi que Bagagem formalizou isso em livro. Eu já havia descoberto que a poesia era aquilo que me fazia feliz.

Como foram as expectativas em relação à sua estréia na literatura? Eu não tive essa expectativa posterior à publicação do livro, pois, antes do seu lançamento, eu já tinha tido uma crítica do Drummond, que foi muito generosa, muito boa, que me abriu as portas... Ele fez um texto no Jornal do Brasil, dando indícios de que havia aqui em Minas um poeta assim, assim... Então, as portas se abriram. E eu fui muito feliz, criticamente falando também, o livro foi muito bem recebido.

O que você gosta de ler hoje? Eu adoro ler Psicologia. Há muito tempo que já estou lendo toda a obra de Jung; me interessa muito, profundamente.

E como está sua produção? Eu estou escrevendo um livro chamado O Homem da Mão Seca. Está muito difícil. Tem muito tempo que não dou conta de escrever mais nada. Não sei nem se vou conseguir fazer o livro...

E música? O que gosta de ouvir? Gosto muito do barroco, imensamente. É uma coisa que se desdobra, se desdobra... A gente é barroca sem saber. Eu descobri quando eu já era velha (risos). Já estava barrocando há muito tempo e não sabia (risos).

Que recado você daria aos jovens poetas de hoje? Deus me livre! Nenhum recado. Que escrevam quando a poesia pedir para ser escrita. Só isso. Mais nada.

 

Fonte: https://medei.sites.uol.com.br/penazul/geral/entrevis/prado.htm

 

ENTREVISTA COM O POETA FERREIRA GULLAR: “O LULA É UM FARSANTE”

 
 

Entrevista do poeta Ferreira Gullar à Folha Ilustrada. Data 02/06/2010.

Prestes a completar 80 anos, Ferreira Gullar prepara livro inédito de poesia

Por Marco Rodrigo Almeida enviado especial a São Francisco Xavier.

 

“Não me sinto com 80 anos. O calendário é que fala isso. Mas não tenho essa idade”, diz, sério, o poeta Ferreira Gullar quando o assunto é seu próximo aniversário, em 10 de setembro.

A tranquilidade associada à velhice, realmente, não se aplica a ele, como sabem os leitores de sua coluna na Ilustrada.

Gullar, que lança em setembro um livro inédito de poesia, “Em Alguma Parte Alguma”, preserva intacto há mais de 50 anos o espírito crítico que faz dele um dos principais, e mais controversos, pensadores do país.

No domingo, um dia antes de ganhar o Prêmio Camões, o principal da língua portuguesa, ele participou do Festival da Mantiqueira, em São Francisco Xavier.

Logo após o debate, recebeu a Folha.

Na entrevista, fala sobre governo Lula, o comunismo, eleições presidenciais, criação poética, drogas e sexo.

Leia a íntegra:

Folha – Por sua história política, muita gente estranha o senhor ser um dos principais críticos do Lula.

Ferreira Gullar – Não é que seja um crítico ferrenho, tento ser objetivo. Eu me preocupo com o futuro do meu país. O Lula é um farsante, não merece confiança. Não entendemos o que ele faz.

Como abraçar o Ahmadinejad [presidente do Irã], de um regime que é uma ditadura teocrática, que realizou uma eleição fraudada. O povo protestou contra o resultado e o Lula disse que aquilo é choro de perdedor, como se fosse uma partida de futebol.

E o povo tá na rua, sendo reprimido, gente morrendo. Por que um presidente brasileiro vai dar apoio a um governo desse? Não entendo o interesse do Lula lá. Por que reatou relações com a Coreia do Norte? A Coreia é um regime atrasado, o povo morre de fome, muito atrasado. O povo com fome e o governo fazendo bombas. Não entendo o Lula. É um governo para enganar as pessoas.

O senhor já declarou admirar o presidente Barack Obama. O que achou quando ele disse que Lula é o “cara”?

Isso foi uma brincadeira. O fato de o Lula ser um operário que chegou aonde chegou desperta a simpatia das pessoas. Mas ele não quis dizer que o Lula é o “cara” do mundo. É uma bobagem, é provincianismo brasileiro ficar dando atenção a isso.

Quero saber é do destino do país. Não quero saber de piada, mas o que vai acontecer com nossa democracia.

Outra grande bobagem é o Marco Aurélio Garcia [assessor da Presidência] querer impedir a exibição de filme americano na TV a cabo. Alguém tem que falar para ele que já estamos em 2010. É muito atraso.

O senhor ainda se considera de esquerda?

Essa coisa de direita e esquerda é bastante discutível. Quem é de esquerda hoje? O Lula é de esquerda? Não me faça rir. Eu nunca tive medo de pensar por mim mesmo. Não fico preso a uma verdade indiscutível.

Outro dia li na internet uns jornalistas falando que quem foi de esquerda e não é mais se vendeu. Parece o fundamentalismo islâmico. A verdade indiscutível, quem ficar contra é traidor.

Arrepende-se de ter sido filiado ao Partido Comunista na década de 1960?

Eu aprendi na minha luta política, no preço que paguei no exílio, a ter uma visão diferente do marxismo que não tenho medo de expressar. O marxismo foi uma atitude correta e digna diante do capitalismo selvagem do século 19. Surgiu como uma alternativa contra aquela coisa inaceitável. Mas a projeção da sociedade futura, com a ditadura do proletariado, é um sonho equivocado.

Na minha experiência, durante a queda de Salvador Allende [(1908-1973) presidente chileno, deposto por um golpe militar], eu vi a extrema esquerda e o Partido Socialista de Allende trabalharem a favor do golpe, pensando que estavam sendo mais de esquerda do que todo mundo. Na verdade, colaboraram com a CIA para derrubar Allende.

O marxismo tem uma visão política generosa, mas equivocada

O senhor, então, também se equivocou?

Eu também cometi muitos erros na época [anos 60]. A fúria fundamentalista só conduz ao erro. Queria me sacrificar pelos interesses do país, mas não basta ter razão para estar certo.

Tem que ter lucidez, resolver com a cabeça e com a inteligência.

Quando me convidaram para participar da luta armada, eu disse a eles: mas nós vamos derrotar sozinhos o Exército, a Marinha e a Aeronáutica?

Tem que ter lucidez. Eu não vou chamar o Mike Tyson para lutar boxe comigo. Eu o chamo para discutir poesia, que aí ele tá ferrado.

E quanto às eleições, quais são suas expectativas?

A Marina Silva é uma excelente pessoa, dá um conteúdo ético para a disputa eleitoral. É preciso alguém com a estatura dela, com a pureza dela num país onde a corrupção impera. Mas a chance de ela ganhar é pouca.

Eu espero que a Dilma não ganhe. Se ganhar, nós corremos o risco de ter 20 anos de PT no governo, o que seria um desastre nacional.

Vai então votar no Serra?

Vou. Pelo que sei, ele fez um ótimo governo em São Paulo. Não conheço nenhuma acusação de que seja corrupto ou safado. Foi excelente ministro da Saúde. Se não votar nele, vou votar em quem?

Como definiria o novo livro?

Todos os meu livros são diferentes. Neste ["Em Alguma Parte Alguma"] predomina uma certa relação entre ordem e desordem. Eu escrevi no limite da ordem, ou seja, no limite da desordem.

A maneira de fazer os poemas foi diferente, mais desordenada.

Comecei a escrever sem saber o que iria acontecer, sem planejar nada, sem preconceber. A poesia foi para mim uma grande aventura.

Ao contrário dos outros livros, em que os poemas já nasciam quase prontos, já que ficava sempre refletindo e elaborando antes de escrever. Já hoje começo sem saber o que vai acontecer.

Tanto que o primeiro poema, que abre o livro, tem o nome “Fica o Não Dito por Dito”. Eu tô dizendo que, já que não posso dizer o que quero dizer, faz de conta que eu disse.

E qual é a sensação quando o senhor encontra o verso?

Ah, dá muita felicidade. Os poetas têm mania de dizer que escrever poesia é um sofrimento. Pode ser pra eles, para mim é uma alegria.

“O Poema Sujo”, que escrevi no exílio, nasceu de um “transe”, um “barato” que durou por cinco meses. Sentia-me impelido a escrever.

No final do “Poema Sujo” está um dos seus mais famosos versos, “a cidade está no homem/quase como a árvore voa/no pássaro que a deixa”.

Para você ver como a poesia é uma coisa totalmente sem lógica, certo dia eu acordei lembrando de uma frase que tinha lido do Hegel [filósofo alemão, (1870-1831)] citada por Lênin [líder soviético, (1870-1924)]: “na frase o ramo da árvore estão o universal e o particular”. Parei pra pensar: a árvore é o universal, é o todo, e o ramo é parte dela, então é o particular. Essa frase me fez escrever o final do “Poema Sujo”.

Eu posso arrancar o ramo da árvore, mas a árvore continua nele. Como São Luís, no Maranhão, está em mim mesmo quando estava em Buenos Aires. Aí entrei no “barato”. Quando é que o Hegel imaginou que a frase dele ia fazer um poeta brasileiro terminar um poema escrito em Buenos Aires? (risos)

O senhor fala em “transe”, “barato”, sensações geralmente associadas às drogas. Já experimentou alguma?

Uma vez, quando tinha 15 anos, um amigo me chamou para fumar uma diamba, que é como chamam a maconha em São Luís. Dei uma tragada e senti um gosto de mato velho. Achei uma porcaria, nunca mais experimentei.

Tem gente que compara o estado de criação com o “transe” da droga

É bobagem dizer que as drogas ajudam na criação. Ela é outro tipo de “transe”, que requer lucidez. Sem isso é impossível criar.

Durante a criação, você está, por um lado, livre da lógica rudimentar e, ao mesmo tempo, muito lúcido. Você está altamente emocionado, mas tem uma outra lucidez, que não é a da lógica pura e simples.

A lucidez costuma ser também um remédio contra o sofrimento em muitos de seus poemas, como “A Alegria”.

Quando escrevi esse poema estava no máximo do sofrimento, exilado em Buenos Aires. Não sabia o que fazer da minha vida. Comecei a valorizar o sofrimento. Pensei: ‘”sou um herói do sofrimento, um novo Cristo?”.

Mas quando você está numa situação sem saída, resta sempre a poesia. Aí escrevi: “O sofrimento não tem nenhum valor”. Não quero saber do sofrimento, quero é felicidade. Não gosto de fazer lamúrias. Detesto o passado.

Uma vez, discuti feio com a Cláudia [Ahimsa, companheira de Gullar há 15 anos]. Fiquei sozinho em casa, cheio de razão e triste pra cacete. Então, pra que querer ter sempre razão? Não quero ter razão, quero é ser feliz.

Como é iniciar um relacionamento depois dos 60 anos?

Não tem muita diferença não, do ponto de vista de relacionamento em si. Você se apaixona e começa um romance. Eu tinha 64 no inicio e ela tinha 30 anos. Relacionamento é interesse um pelo outro. Hoje sou uma pessoa mais tolerante, mais reflexiva, tento compreender melhor o outro. Tento não me achar o dono da verdade. Já me enganei tantas vezes na vida que posso estar enganado de novo.

E como fica a relação sexual durante a fase de maturidade?

[Risos] Eu acho que você se torna mais refinado, menos vulgar. Acho sexo uma coisa maravilhosa, mas não fico pensando muito nisso. Penso mais sobre arte, política. Sexo eu não penso, eu faço.

Mas também não acho que seja o mais importante da vida, que o cara tenha que comer 300 mulheres. Legal é ter afeto, ter carinho.

O senhor falou sobre vulgaridade. Acha que o mundo está mais vulgar?

Acho que sim. A vulgaridade tomou conta das coisas. As pessoas devem achar que é um escândalo o que falo. Devem achar que estou velho e tal.

Mas essa ideia de que ir contra o que é tradicional é bom é uma besteira. Olhe a própria arte contemporânea. Quer ser diferente de tudo, não respeita norma nenhuma. Mas a vida é inventada, cara. Se não houvesse norma a civilização não existiria. É só isso.

Um quadro do Monet, do Picasso, é uma coisa elaborada, um produto que vem de quadros anteriores. O significado está na linguagem, se acabar com a linguagem não tem significado.

Hoje tem gente que pensa que o século 19 era atrasado porque as mulheres se vestiam da cabeça aos pés, não mostravam nenhuma parte do corpo. Hoje a mulher está de fio dental mostrando a bunda na praia. Isso é ser mais avançado do que ser elegante? Hoje é mais avançado mostrar a bunda? Para mim isso é mais primário, mais escroto. Perde todo o mistério da mulher. É muito mais legal, rico, sensual, erótico e poético se comover com o pé da moça.

 

Fonte: https://www.blogdogusmao.com.br/v1/2010/06/03/entrevista-com-o-poeta-ferreira-gullar-o-lula-e-um-farsante/